O quarto fazia jus à personalidade. Iluminado, com diferentes nuances e texturas, mostra também detalhes que à primeira vista ficam ocultos - os diversos livros e cadernos nas prateleiras quase não chamam atenção como os escritos da parede preta e os recados pendurados ao lado do guarda roupa. A primeira coisa que se olha nela é a tatuagem no braço esquerdo, que começa no ombro e termina no cotovelo. As cores são vibrantes e também combinam com a sua personalidade. Tudo nela é bonito. Eu, um pouco sem graça, começo a montar os equipamentos enquanto ela conversa. Ela me pergunta se deve tirar os óculos e respondo que não faz reflexo na câmera. Mesmo assim, ela os tira. Reparo na sombra furta-cor tímida, alinhada ao delineador que cumpre a função perfeitamente - delineia o olhar dela, combinando com o batom vermelho. Tudo nela é bonito.
Logo na primeira pergunta que faço, ela explica a tatuagem mais aparente: quando criança, adorava desenhos animados e “os filmes mais esquisitos da Sessão da Tarde”. Laila ainda conta como algumas de suas preferências deixavam sua mãe brava, e declara: “Eu sou apaixonada pela Família Adams”. Para ela esses filmes e desenhos faziam com que ela se sentisse “semi-representada” porque mostravam que “tem gente estranha no mundo também.”
Foi ainda na escola que ela descobriu que era diferente. “Crianças são ruins, né? Às vezes elas são cruéis. Eu tive épocas que me sentia muito mal comigo mesma por causa da escola”, desabafa. Ela, que já foi bailarina, deixou o esporte por que a diferença de pensamentos era muito grande: “É uma pressão se sentir diferente quando se é pequeno, porque eu não tinha maturidade suficiente pra entender que para ir lá e fazer o que eu gosto, eu teria que enfrentar um monte de preconceitos, ouvir coisas que eu não tinha que ouvir e passar por coisas que eu não imaginei que eu ia ter que passar.”
No ensino médio, Laila aprendeu a não se importar com “as caras esquisitas” que (ainda) olham para ela, e decidiu: “Bom, deixa pra lá! Eu vou ser quem eu sou mesmo!”. Quando pergunto como ela começou a construir o estilo que tem hoje, ela me responde com um sorriso: “Então.. Nem eu sei direito!” e depois completa “eu acho que começou com os filmes que eu gostava, e depois com a internet - que ainda era horrível, mas ao mesmo tempo era ótima! Eu comecei a ver outras pessoas que também usavam o estilo que eu gostava e principalmente que tinham o corpo parecido com o meu, e isso não impedia elas de usar as roupas que elas gostavam.”
Para ela, a faculdade foi onde começou a se sentir verdadeiramente bem consigo mesma. Foi conhecendo “gente de todo lugar, de todas as idades, de todos os estilos e de todos os pensamentos” que ela pôde perceber que tem gente de todos os jeitos e tamanhos que estão bem consigo mesmas - e assim, ela cansou de estar insatisfeita consigo. E me deixou isso claro a cada nova resposta. A sinceridade que ela carrega nas palavras demonstra que a época de se importar com o que o outro vai achar ou não de você ficou para trás. “O problema nunca era da Laila com a Laila. Sempre do que o outro vai pensar de mim. E quando você entende que não é com você, é com os outros, fica muito mais fácil! É um medo muito estranho esse “do que o outro vai achar de você, por que o outro pode achar o que ele quiser! E não tem o que a gente possa fazer para controlar isso."
“Essa coisa de você poder usar a sua personalidade numa parte de você é incrível! Por isso eu gosto tanto das tatuagens. Elas fazem parte de mim, não tem mais como tirar. Não tem como eu deixar de ser quem eu sou.”
Durante muito tempo Laila deixou de fazer coisas que queria por que tinha receios de como as pessoas reagiriam, “tudo que eu faço é pra exteriorizar o que eu penso e aquilo que eu sou, então, não queria passar a impressão “errada”. Mas ela entendeu que se alguém prefere julgá-la pela sua aparência e isso faz com que as pessoas se afastem, então, “essa não é uma pessoa que eu quero conhecer.” Hoje, ela se sente livre. E não se preocupa mais em agradar outra pessoa que não a si mesma. Ainda assim, os preconceitos que as pessoas escondem fazem com que ela tenha medo: “eu não tinha dimensão dessa quantidade de preconceitos que as pessoas têm. Dá medo de ser julgada só porque você é diferente”. Ao mesmo tempo, quando uma criança ou uma senhora veem nela características que carregam significados diferentes, “aí eu acho que vale a pena!”
Laila acredita que se amar é um processo gradual, e que é importante dizer “demorou muito tempo para eu não me odiar, e agora eu tenho que falar que está tudo bem”, porque “ver outras pessoas conversando mais abertamente sobre aceitação, faz você ver que não está sozinho e que você não é errado”.
Eu não me atrevo à defini-la, não. Mas se precisasse dizer em uma só palavra o que ela me transmitiu, sem dúvida nenhuma seria “harmonia”. Harmonia nos tons - de voz e de pele. Harmonia de cores: da sua maquiagem ao seu quarto. Harmonia pura na risada. E no olhar. Harmonia que transmite e se perpetua, deixando o coração quentinho e feliz.
Laila conseguiu me fazer perceber que o mundo não tem direito de dizer qualquer coisa sobre mim e eu nem posso dizer o quanto sou grata por ela me ensinar isso. Esse tipo de aprendizado requer exercícios - complexos e demorados - de auto aceitação e respeito, mas Laila usou só sua personalidade e bom humor para me ensinar. Foi justamente através desses exercícios em busca da aceitação do meu corpo que conheci Carla Ortiz, modelo plus size que esbanja beleza nas suas fotos do Instagram. Ela, que define seu estilo como “chique fashion” é inspiração para milhares de pessoas, mas também precisou de ajuda para descobrir como se amar. Em nossa conversa compartilhamos inquietações sobre a sociedade e as formas com que as pessoas costumam reagir ao corpo gordo.
Os pais de Carla possuem uma marca de jeans e foi fotografando outras modelos para a linha curvy que ela recebeu incentivo para tentar fazer algumas fotos, “as modelos sempre me falavam que eu deveria posar, mas eu não queria aceitar que era plus size. Eu falava que não tinha como porque eu usava 42 (tamanho da calça), mas na verdade, eu usava 44. Eu queria dizer pra mim que eu não era plus size, que eu não estava nesse padrão ainda”. A dificuldade para encontrar alguém que tivesse “a cara da marca” fez com que Carla tentasse posar para algumas fotos “e a campanha ficou incrível!”. Ainda assim ela não se aceitava, “mesmo com as pessoas dizendo que eu era linda nos comentários, eu dizia que era só um momento de transição e que voltaria a ser magra.”
Desde pequena, Carla escutava que não deveria repetir o prato, mas não se sentia mal com isso. Houve até um episódio em que recebeu dinheiro do pai para que pudesse emagrecer, e os exercícios eram uma obrigação, “da minha família era uma cobrança muito grande”. Na infância, os programas que ela assistia retratavam mulheres magras e por isso “era um sonho emagrecer”. Todos os dias, ela acordava pensando em começar uma dieta, e mesmo que começasse, era uma questão de tempo para que desistisse, porque além disso, ela comia por compulsão. Na adolescência, embora ela não tivesse um “corpo padrão”, Carla era magra - mas se sentia gorda.
“Mas eu não era feliz sendo magra, porque eu sempre me senti gorda... Eu achava que minha vida só ia começar quando emagrecesse.”
Por isso, com 20 anos, começou a tomar sibutramina - um inibidor de apetite - junto com outros remédios que tinham a mesma função. Até 2011, esses medicamentos eram proibidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), já que o uso dos chamados anorexígenos podem causar graves efeitos colaterais, tais como: depressão, psicose, esquizofrenia, aumento da pressão sanguínea, entre outros. Foi só em junho do ano passado que a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei autorizando a produção e comercialização - sob prescrição médica - de remédios inibidores de apetite. Carla conta que durante uma viagem parou de tomar os inibidores e chegou a engordar 5 quilos, o que fez com que ela abrisse mão das dietas - começando a engordar. Isso fez com que ela voltasse a comer compulsivamente e a se sentir mal com seu próprio corpo.
Foi consumindo conteúdo de gente que se parecia com ela que Carla passou a se aceitar, “as pessoas que eu sigo hoje são pessoas gordas, que eu me reconheço, que tem o corpo semelhante ao meu, que fazem com que eu me sinta representada. Era muito frustrante seguir pessoas magras e fitness, ver uma roupa e ao experimentar não ficar do mesmo jeito em mim... Eu me sentia muito mal. É incrível seguir pessoas estilosas e lindas e que tem o corpo parecido com o meu!”. Para Carla, “A gente chegou no tempo de aceitar o nosso próprio corpo!”.
Embora a auto aceitação tenha sido pauta em diferentes esferas sociais, ainda há muito a ser feito quando pensamos no outro. Carla não teve seu trabalho de conclusão de curso aprovado na Faculdade de Moda por gordofobia. “Meu TCC era sobre moda plus size e minhas professoras falaram que as roupas que eu estava fazendo eram muito fechadas - como se gorda só pudesse usar decote -, que eu tinha que ter feito uma listra lateral para emagrecer o corpo - como se o nosso jeito de vestir tivesse que ser baseado em coisas que emagrecem”. Quando pergunto como ela reagiu à reprovação, ela responde que chorou. Mas que na hora não percebeu que se tratava de preconceito, “eu pensei que eu tinha sido burra, e só depois percebi que era gordofobia!”
Uma pesquisa realizada no ano passado pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) e encomendada pela Skol Diálogos revelou que a gordofobia faz parte do cotidiano de 92% dos brasileiros. Entre os 2002 entrevistados, apenas 17% se declararam preconceituosos - desses, 10% assumiram ser gordofóbicos.
A Skol Diálogos escancara a mudança que o debate em torno dos preconceitos causou no mercado - em geral. As “minorias” não aceitam mais serem vistas como tais e as marcas precisam correr atrás do tempo perdido.
“As grifes de moda que não colocam modelos negras, modelos gordas, modelos maduras, modelos diferentes, deixam a coleção com cara antiga... Porque não é a mais a nossa realidade! A realidade hoje é retratar diferentes tipos de corpos! O mercado entendeu que tem uma demanda, e agora eles nos enxergam como um público”, pontua Carla.
De um lado, Laila - que aprendeu cedo à lidar com o preconceito alheio. De outro, Carla - que precisou de um empurrãozinho a mais para poder se amar. No meio, eu - ainda na busca para aceitar o meu corpo. Entre nós três, a certeza de que não estamos sozinhas. E que ainda há um universo de pessoas que precisam aprender a se respeitar e respeitar ao próximo.
TEXTO | IMAGENS | EDIÇÃO: Mariana Tirelli